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A imagem do Brasil aqui no exterior

É exatamente como você pensa.
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Acabou aqui na Noruega o Wexfo (World Expression Forum). Eu conversei com muita gente nesses dois dias, pessoas de 15 país e de todos os continentes. A primeira pergunta em tom de espanto é sempre a mesma: “Como vocês elegeram Bolsonaro?”

Nossa imagem é terrível, eu sinto vergonha. Deixamos de ser uma democracia proeminente e hoje somos vistos como um bando de idiotas.


Amanhã saio daqui de Lillehammer e sigo pra Oslo, onde tenho um encontro com jornalistas e ativistas locais. Vou fazer o mesmo que fiz na Wexfo: denunciar o estado de delinquência do nosso governo e os perigos pra nossa democracia.


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Segue meu discurso feito ontem para uma plateia imensa que incluiu três prêmio Nobel.

Vivemos em um mundo dividido. Vivemos em um em guerra.

A imprensa tem sido um dos principais alvos daqueles que acreditam que as democracias chegaram em seus ocasos.  

Nas técnicas modernas de batalha, em um mundo mediado por algoritmos e redes sociais, a guerra híbrida tornou a manipulação da informação a principal arma de conquista dos povos. O que era antes uma estratégia militar, hoje se tornou matéria obrigatória da má política. 

A disseminação de fake news é um experimento social ainda em seu começo.

Não se enganem: não vamos conseguir combatê-la com as ferramentas que temos hoje. O futuro que está sendo construído agora, do metaverso, permitirá ambientes onde a verdade e a mentira serão apenas meros detalhes de vidas que ainda nem conhecemos. É preciso prestar atenção no mundo das próximas décadas.

Esses já são desafio do presente, mas há ainda outros mais urgentes.

No começo desse ano fui atacado na rua em meu país. Um cidadão perseguiu a mim, minha esposa e meu filho de três anos de idade, bateu com a mão no meu ombro e me ameaçou. O caso foi noticiado em todo o país.

Vivemos eu e minha família sob escolta armada há três anos. Nossa vida foi limitada pela violência de Estado depois que o presidente do país, Jair Bolsonaro, declarou a imprensa “inimiga do povo”. O ataque que sofri representa os ataques diários contra meus colegas jornalistas.

Isso não é normal. Isso não pode ser o novo normal. Nenhum jornalista deveria precisar de escolta armada para fazer seu trabalho: jogar luz naquilo que os poderoso pretendem esconder.

Mas isso é apenas a ponta do iceberg. O principal problema que enfrentamos hoje é o assédio judicial, uma estratégia utilizada em diversos países do mundo com resultados muito efetivos.

É o caso do escritor de livros brasileiro João Paulo Cuenca. 

Cuenca recebeu mais de 100 processos de uma ordem religiosa brasileira depois de fazer críticas publicamente. Para que possa se defender, segundo a lei brasileira, Cuenca precisa estar presencialmente em todas as cidades onde foi processado judicialmente. Caso tenha que cumprir essa determinação, sua vida nos próximos anos se resumirá a viver dentro de tribunais.

Há outros casos, como o de juízes processando jornalistas nas mesmas comarcas onde atuam. Ou seja: no fim do dia, o caso será julgado por um colega desse mesmo juiz interessado na causa e no dinheiro. Qual a chance que temos de ter uma defesa justa? Eu respondo: nenhuma.

Na semana que passou eu mesmo fui condenado a pagar uma indenização a uma juíza depois de criticá-la publicamente. Fui julgado por seus colegas na mesma comarca onde ela trabalha. Então perguntamos: como combater o crescente autoritarismo? Essa legislação precisa mudar e se adequar a países que têm entendimentos diferentes.

Assim como perdi outro processo por chamar um assessor do presidente da República de nazista. Ele estava fazendo um sinal de supremacia branca em uma sessão pública no Senado.

Vivemos em um mundo em guerra. Para nós, jornalistas, uma guerra pela verdade e pela verdadeira liberdade de expressão. No Brasil, a extrema direita diz lutar pela liberdade de expressão quando, de fato, luta pela liberdade de agressão. Precisamos deixar isso claro de uma vez por todas.

Obrigado.

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Leandro Demori