🇨🇺 A fome em Cuba virou moeda eleitoral
O plano macabro de Trump e Rubio
Fui a Cuba em dezembro e a coisa já estava horrível. Não tinha gasolina e nem óleo, o que significa não ter luz elétrica, porque boa parte da geração de energia da ilha vem de termelétricas, que dependem de óleo importado. Havia também um problema enorme no fornecimento de água: as estações de bombeamento estavam paradas, sem luz. O governo cubano vinha fazendo um rodízio: a parte oriental ficava um dia com luz, depois outra região, depois Havana, depois o centro, num revezamento de apagões pela ilha ao longo da semana, resultado direto de um estrangulamento que se intensificou nos últimos meses vindos dos Estados Unidos.
Parece estranho e sádico imaginar que a superpotência do Norte perca tempo com uma ilha no caribe enquanto suas bases são arrasadas nas cercanias do Irã. Demorou pouco para que me explicassem a estratégia. Enquanto eu estava vivendo o caos de perto, do outro lado, em Washington, Marco Rubio vinha tratando Cuba como prioridade pessoal.
A escala do aperto ajuda a explicar o blecaute que vi: desde janeiro de 2026, o governo Trump aplicou mais de 240 sanções contra o regime cubano, interceptou pelo menos sete navios-tanque com destino à ilha (um deles, russo, chegou a ficar parado no mar, mas foi embora)e reduziu as importações de energia de Cuba em algo entre 80% e 90%. Em maio, Rubio anunciou sanções específicas contra a GAESA, o conglomerado empresarial controlado pelas Forças Armadas cubanas, que ele descreveu como “o coração do sistema cleptocrático comunista” e que responde por pelo menos 40% da economia da ilha. Não é coincidência que a luz tenha faltado justamente onde eu estava: é a consequência prática de cortar o combustível que alimenta as termelétricas de um país que já não tinha margem nenhuma.
A lógica declarada da Casa Branca segue a Lei Helms-Burton, de 1996, que Rubio invoca como mandato legal, e não escolha política: o embargo só é suspenso com “mudança de regime”, como ele chama o governo. Ele mesmo disse que os EUA “adorariam ver uma mudança” em Cuba, mas que isso “não significa que vamos provocá-la diretamente” — ou seja, o objetivo é fazer o sistema quebrar por dentro, por fome e apagão, quem sabe com revolta de uma população desesperada, sem precisar de uma intervenção direta que teria custo político imprevisível.
E é aqui que entra a alavanca eleitoral. Isso é peça central de um jogo maior, jogado de olho nas eleições de meio de mandato de novembro de 2026. A comunidade cubano-americana no sul da Flórida é um dos blocos eleitorais mais valiosos do Partido Republicano, e mostrar resultado contra Havana antes de novembro é uma forma de manter essa base mobilizada e o estado sob controle republicano. A conexão entre política externa e cálculo doméstico não é sutil: Rubio, filho de imigrantes cubanos, transformou a pasta de Cuba em vitrine, e o discurso público mistura punição ao regime com promessa de “uma nova relação” com o povo cubano — sempre em tom de campanha.
Só que essa alavanca tem um efeito colateral que pode se voltar contra quem a puxou. Uma pesquisa recente mostrou que 68% dos cubanos e cubano-americanos consultados no sul da Flórida desaprovam, total ou parcialmente, as deportações de cubanos sem documentos e sem antecedentes criminais promovidas pelo governo Trump. Isso ameaça diretamente cadeiras como a da deputada Maria Elvira Salazar, hoje sob forte desafio. Ou seja: o mesmo eleitorado que aplaude sanção à Cuba também tem parentes sendo deportados, sem cometerem crime algum, e a conta dessa contradição chega exatamente no ano em que o voto cubano-americano deveria estar garantido para os republicanos.
O que eu vi em dezembro — uma ilha sem óleo, sem luz, revezando blecaute entre regiões — não é um acidente da economia cubana. É o resultado visível de uma política desenhada em Washington para produzir colapso como prova de eficácia diante de um eleitorado específico, na Flórida, antes de uma eleição específica, em novembro. A tragédia humanitária cubana (inclusive com fome forçada) virou, mais uma vez, matéria-prima de campanha americana.
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